I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS
Em 1919 o poeta Manuel Bandeira publicou no Rio de Janeiro o livro “Carnaval”, onde o verso livre dominava, mas o ritmo assumia posição essencial. Há na poesia de Bandeira certa fala cadenciada: uma fala brasileira. Três anos depois, quando se efetivou a realização da “semana de arte moderna”, seus idealizadores trataram de se aproximar do escritor e trouxeram-no para São Paulo. O evento reuniu representantes da literatura, da música e das artes plásticas, entre outros. Era fevereiro de 1922 e faltavam apenas alguns dias para o carnaval. Minha família, cuja origem remonta aos imigrantes ibéricos e italianos, que vieram ao Brasil no início do século XX em busca de trabalho, deu-me como legado a euforia carnavalesca. Herança efetivamente justificada pela busca incessante de alegria, face ao exaustivo labor exercido em seus primeiros anos no novo país. O fato que vou narrar poderia ser considerado constrangedor para alguns. No entanto, não tendo qualquer genealogia aristocrática, tratou de ser narrativa repetida por diversas vezes entre familiares e amigos. Vê-se: tornamo-nos brasileiros, traduzindo o burlesco em elegância. Mas antes, é preciso entender nosso carnaval.
Segundo alguns historiadores o carnaval é uma festa que teria surgido na Grécia, a partir de 600 a.C., cuja motivação era o agradecimento aos deuses pela fertilidade do solo. Outros estudiosos falam das festividades na Mesopotâmia, especificamente na Babilônia. E alguns autores vagueiam entre as regiões do que atualmente chamamos de oriente médio. Mas é senso comum que o evento foi incorporado pela igreja católica no séc. XI, como uma espécie de última euforia anterior a quaresma, período caracterizado pelo jejum. A palavra ”carnaval” provavelmente deriva de “carnis” e “levare”, ou seja: “suspendam a carne” – e outros prazeres também. Depois a ordem religiosa era fechar a boca e mais alguma coisa, até a páscoa.
A história do carnaval no Brasil tem início no período em que éramos colônia de Portugal, uma pequena colônia em uma extensa área.
Entre suas manifestações iniciais estava o entrudo, uma festa de origem portuguesa que, acreditem, era praticada pelos escravos. Depois vieram os cordões e os corsos, os frevos, os maracatus e os afoxés. Estes últimos, importados de algumas regiões da África, têm sua gênese nas festas profano-religiosas, que eram executadas em momentos específicos em cada região, conforme suas tradições. Mas no Brasil tornaram-se manifestações populares, sendo prontamente incorporados ao nosso universo cultural.
Não seria incorreto, embora simplista, dizer que o “carnaval” após ter passado por Veneza ganhando as máscaras, seguido para a França – Paris foi seu grande difusor – e incorporado fantasias e outros adereços, tenha enfim trazido novos elementos ao Brasil. Mas, que o resto do mundo me perdoe, foi aqui com esse povo alegre de poucos recursos que o carnaval ganhou as letras maiúsculas e tornou-se Carnaval. A cidade do Rio de Janeiro abriga atualmente o maior carnaval do mundo. Expliquei estas questões para chegar às marchinhas e sambas. E finalmente falar dos bailes de carnaval, que sobreviveram com alguma qualidade até o final do século XX. Minha geração cresceu pulando em salões de baile, ao som de bandas verdadeiras, que tocavam durante quatro noites seguidas. Eram dias de alegria pura, não contaminada. Não raras vezes, um ou outro folião terminava sua noite de carnaval exausto no chão do salão, abraçado com uma bela criatura feminina, para descobrir na quarta-feira de cinzas que ela não era tão bela assim. Mas pouco importava.
Estes saraus dançantes eram realizados em clubes, familiares na maioria, onde quase todos usavam roupas temáticas ou fantasias que, acredito, eram pretextos para apropriação de um ego oculto. Devo dizer, ainda, que a sexualidade sempre foi característica privilegiada naqueles bailes, mas certamente era contextualizada pela sensualidade das roupas e não pela exposição excessiva de nudez. Mas o erotismo tem sua presença confirmada. Tanto é verdadeira essa afirmação que, por simples curiosidade, ouso confessar: muitos nascimentos se deram após nove meses das datas correspondentes ao carnaval, esse é meu caso. Não devo ter sido produzido por foliões exatamente sóbrios.
Confetes e serpentinas, elementos trazidos da Europa no século XIX, compunham a atmosfera lúdica quando voavam pelos salões e enroscavam-se nos ventiladores. Em outros tempos de carnaval era também comum o uso de ampolas de lança perfume, cuja justificativa de utilização era aromatizar, mas seu real objetivo era excitação e indução à euforia. Perdemos essa, ao menos na versão oficial. A origem desse costume, atualmente tornado ilegal, vem da época em que os mais assanhados jogavam limãozinho-de-cheiro nas meninas, pelas ruas da cidade. A questão “perfumar” integrou-se sorrateiramente aos eventos carnavalescos. Participei de bailes animadíssimos de carnaval. E em um deles encontra-se a curiosa história familiar que ouso relatar.
Muitas histórias de carnaval se perderam. Infelizmente, as tradições se adaptam ou se perdem. Nesse início de século, as famílias restringem-se mais às suas casas. Eventualmente seguimos um ou outro bloco de carnaval e ainda participamos de ensaios de escolas de samba. Mas é só. O mundo ficou menor.
Aliás, sobre essas associações –falo das escolas de samba– devo observar que nossa geração pouco se interessou por saber como surgiram suas designações, mas acredito que esse termo merece uma explicação: em agosto de 1928 – há divergências – alguns sambistas resolveram criar uma agremiação de samba. O local de ensaios ficava na Rua Estácio, no Rio de Janeiro, ao lado de uma escola normal.
Por esse motivo resolveram chamá-la “escola de samba”. Daí a origem do nome. No ano seguinte saíram às ruas, usando as cores vermelho e branco.
Fundou-se assim a primeira escola de samba do Brasil: a ”Deixa Falar”. Esse grupo de foliões não era muito diferente dos atuais “blocos de carnaval”, mas fez imenso sucesso. E em seguida, outras escolas surgiram. Mas foi somente em 1932, a partir de uma promoção realizada por um jornal de época, que aconteceu realmente um desfile organizado para aqueles grupos.
E o carnaval continuou. Vieram os sambistas do morro e também os de lá de baixo. Vila Isabel, bairro carioca, presenteou-nos com Noel Rosa, compositor inigualável que vez ou outra refugiava na casa de Cartola, compositor do morro, para acalmar a bebedeira. Cartola, responsável por letras de samba carregadas de extremo lirismo, começou a vida como ajudante de pedreiro e deixou-nos músicas que são consideradas verdadeiros clássicos neste estilo musical. Não cabe aqui montar um compêndio sobre o carnaval no Brasil. Inúmeros livros tratam do assunto.
Sobre os criadores de sambas: há alguns anos atrás tivemos a oportunidade de conhecer Candeias Junior, autor de músicas carnavalescas, parceiro de Braguinha e Jackson do Pandeiro, todos eles grandes compositores de nosso repertório. Candeias é autor de “Sassaricando” e “Lata d’Água na Cabeça”, entre outras tantas. Figura bem-humorada, ao lado de músicos locais cantou para nós e mais umas cinquenta pessoas, no meio de uma rua na cidade de Conservatória, estado do Rio de Janeiro. Logo depois tornou-se história, mas fez parte de nosso mundo pessoal, apenas por ter nos dado a honra de cantar ao seu lado em praça pública, sobre antigos paralelepípedos e embaixo de uma lua enorme que abraçava a cidade, escondida entre morros. Penso que a lua tentava ouvi-lo. Os “pedacinhos coloridos de papel”, título de uma de suas músicas, caíram invisíveis sobre nós.
Devaneio à parte, volto aos bailes: criamos uma espécie de bloco de carnaval, que não era de rua, mas tão somente um grupo formado por várias famílias. Essas pessoas, cuja faixa etária variava entre oito e oitenta anos, mandava confeccionar fantasias idênticas para todos, mas diferentes a cada ano, e entravam no salão cantando e pulando com uma euforia incondicional. Meus pais, de mãos dadas, eram parte integrante dessa alegria.
Faltava-nos um “trio elétrico”, que não era tradição comum em nossa cidade. Interrompo o relato para explicar o que essa estranha designação representa: em 1950, um proprietário de uma oficina mecânica resolveu decorar um velho Ford pintando enormes confetes em sua lataria. Depois instalou alto-falantes e saiu com um amigo pelas ruas de Salvador, na Bahia, tocando músicas de carnaval. Acabou arrastando uma enorme quantidade de foliões. No veículo havia uma placa com o seguinte texto: “Dupla Elétrica”. O dono da mecânica chamava-se Dodô e seu parceiro era Osmar. No outro ano convidaram um terceiro participante. Estava criado o “Trio Elétrico”.
Toda boa ideia acaba sendo seguida e então vieram outros. Mas a coisa pegou mesmo na década de 1960, quando a prefeitura de Salvador resolveu organizar tum concurso de trios elétricos. Daí em diante deu no que deu. Os carros de som tornaram-se uma constante na Bahia e espalharam-se pelo Brasil. Todos sabem que a Bahia é o estado brasileiro que nos presenteou com Jorge Amado e Dorival Caymmi. O primeiro: escritor e autor de “O País do Carnaval”. O segundo: compositor inigualável de alegrias e tristezas, homenageado inúmeras vezes nos carnavais de Salvador.
Uma observação. Minha intenção ao lembrar os dois: falar de meu pai, leitor de Amado e ouvinte de Caymmi. Essa figura imensa, pai silencioso, nunca me disse “leia” ou “ouça”, mas leu e ouviu o suficiente para que eu aprendesse pelo simples exemplo de ser, que é um modo de ensinar.
Meu pai, filho de portugueses, apresentou-me também as canções de Adoniram Barbosa, compositor, filho de italianos nascidos em uma província de Veneza. Esse é o Brasil de todas as nacionalidades. Adoniran, cujo verdadeiro nome era João Rubinato, é considerado o grande autor de sambas da cidade de São Paulo.
Não tivemos a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, mas suas canções são parte de nossa vida. Uma amostra: “Vila Esperança” é uma marcha de carnaval que merece ser observada de perto, porque não há quem não encontre alguma identidade em sua letra. É um hino ao momento da vida em que a gente vai descobrindo que já não é assim tão criança. É a descoberta do primeiro amor em pleno Carnaval.
Mas vamos aos fatos: Imaginem cerca de quarenta pessoas fantasiadas de beduínos entrando no salão ao som de “Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô, mas que calor ô ô ô ô ô ô, atravessamos o deserto do Saara, o sol estava quente, queimou a nossa cara, allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô” . Uma antiga marcha de carnaval, tocada há dezenas de anos nos bailes de carnaval.
Eu estava no meio da alegre confusão. Foi a primeira apresentação de nosso bloco de carnaval. Nos anos seguintes foram tiroleses, palhaços e outras fantasias mais.
Não participei do grupo em todas as ocasiões. Criei minhas próprias fantasias, mas sempre os acompanhei. E justamente em uma daquelas noites deu-se a cômica situação.
Em determinado ano resolveram os foliões fantasiar-se de palhaços. Mas palhaços luxuosos, com trajes de cetim, nas cores branca e dourada, bordados com rendas e outros complementos, incluindo um chapéu cônico com um pompom na ponta. Roupas elaboradas com adereços suficientes para sufocar de calor qualquer usuário.
Minha adorável mãe, preocupada com o excesso de pintura no rosto, havia tomado fortes antialérgicos. Após a entrada triunfal do bloco no salão, resolveu ela refrescar-se com um copo de “caipirinha. O resultado veio no primeiro gole: uma reação alucinante, uma falsa embriaguez e completa alteração da personalidade. Tornou-se, minha mãe, um legítimo palhaço. Então rodopiou e caiu sobre uma das mesas.
Salvou-a meu irmão, que saiu carregando-a nos braços, enquanto ela gargalhava e acenava para todos. A banda tocava “Quanto riso, oh, quanta alegria” e completava “Mais de mil palhaços no salão”. Meu pai, incrédulo, ficou como um Arlequim assistindo a cena no meio da multidão. No dia seguinte minha mãe estava de volta, pulando no salão, sem lembrar-se de muita coisa, mas tomando o devido cuidado de tomar apenas as caipirinhas. Essas cenas são legítimas heranças pessoais, devidamente guardadas nos berços familiares de minha memória.
Pertencendo ao mundo, mas sendo um brasileiro de coração, penso: não sei se o céu existe, mas se existe tem que ter carnaval!
Quem nunca esteve perto de uma bateria de escola de samba não sabe o que é essa alegria física, incorporada na mente com tal plenitude, que nenhum pensamento que não seja bom tem chance de surgir. A vida torna-se amplificada como o som dos pandeiros. Contento-me com o carnaval de rua e alguns ensaios dessas escolas. Há um certo encantamento em ver a euforia de pessoas que trabalham o ano inteiro por um salário injusto e ainda assim sambam bonito e reinam soberanas sobre os tristes seres que guardam sua vida em contas bancárias. Êta país abençoado!
SÉRGIO ALVARO E OLIVEIRA é Arquiteto e Urbanista por formação acadêmica, cronista e chargista por hobby. Participa de grupos de leitura e escreve poesias, tendo sido premiado em concurso e tendo participado da “Parede de Poesia”, evento que durante algum tempo aconteceu no Centro Cultural São Paulo.
A colagem que acompanha o conto é de BETO BOTELHO artista plástico, designer e figurinista, natural de Itaocara, no interior do Rio de Janeiro. Desde a infância, a arte sempre foi minha grande paixão, e aos 15 anos iniciei minha trajetória no universo do Carnaval, desenhando fantasias. Aos 20 anos, me mudei para Campos dos Goytacazes, onde aprofundei meus estudos em Design Gráfico no IFF (antigo CEFET). Em 2010, segui para o Rio de Janeiro, onde minha conexão com a arte se fortaleceu ainda mais. Especializei-me em Figurino e Carnaval, mergulhando no fascinante cenário da maior festa do Brasil, além de atuar em produções televisivas e grandes eventos, como as Olimpíadas Rio 2016. Hoje, me dedico à criação artística por meio da Colagem Manual, explorando texturas, cores e formas para dar vida às minhas obras. Meu processo de criação é inteiramente artesanal: cortar, colar, desenhar e transformar materiais em arte fazem parte do meu dia a dia, consolidando uma identidade visual única. A arte, a cultura e o Carnaval são minhas essências, e cada criação carrega um pouco dessa história e paixão.